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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Onde está a felicidade?

*Este é um pequeno ensaio que fiz para um concurso.

Sou um caçador. Não um caçador comum, desses que entram no meio do mato para trucidar bichos. Eu caço pessoas. Não, não interprete errado. Eu não tiro a vida das pessoas. Na verdade eu meu objetivo é construir uma vida ao lada de uma dessas pessoas.

Bem, eu coloquei a carroça na frente dos burros, me deixe lhe situar melhor. Meu nome é Corky, e venho de um lugar bem simples. A minha época e localização não são importantes. O que você precisa saber, é que eu venho de um lugar onde as pessoas se levantam com o sol e dormem com o mesmo. A vida naquele lugar é simples, todos dependem de seu próprio esforço para sobrevier. Comem o que plantam e plantam o que comem. Lá, o arado é movido a bois e as ferramentas são arcaicas e deixam calos. É um lugar pequeno para quem vem de fora, e enorme para quem nunca saiu. Como eu a um ano atrás.

Eu não tinha muito, mas a vida era cômoda. De manhã eu cuidava da plantação, e dos animais, e a tarde ia ao mercado trocar ovos, hortaliças ou galinhas, pelo que estivesse precisando. Fazia meus próprios horários, e não devia nada a ninguém. A vida era muito tranquila, mas faltava algo…

Algo tirava o meu sono, mas não sabia dizer o que era. Não faltava comida e minha casa, apesar de simples, era muito aconchegante. Eu tinha amigos, mais do que consigo contar, mas mesmo perto deles a vida não parecia divertida. A sensação que eu tinha, era parecida com aquela que temos quando tomamos uma sopa sem tempero. Não havia tempero em minha vida, e demorei para descobrir qual era o tempero da vida. A epifania veio em uma noite fria, quando me virei no colchão lutando contra a insônia e me encolhendo dentro das cobertas, e percebi que tudo que eu possuía para abraçar, era meu velho travesseiro sem vida. Percebi que mesmo quando cercado de pessoas, eu ainda estava sozinho…

Tentei, juro que tentei, mas não fui capaz de encontrar em minha vila alguém que eu pudesse compartilhar a minha vida. A maioria das mulheres com idade para casar, que não eram muitas, já eram comprometidas ou não poderiam aceitar minha oferta de casamento por diversos motivos.

— Então… - disse uma delas – Você é um rapaz, bonito… Inteligente… E essas coisas todas, mas estou procurando algo diferente… - completou evasiva a jovem que anos mais tarde fugiu da vila, no calar da madrugada, com medo do esposo que chegava bêbado todas as noites.

As desculpas eram sempre adocicadas com adjetivos que me faziam um homem ideal, como “cara legal”, “rapaz bonito”, “inteligente”, “sujeito perfeito”, entre outros, mas sempre havia um “mas” que colocava tudo por terra. Tudo bem. Eu não iria querer passar a minha vida ao lado de alguém que não gostasse de mim.

— Te acho chato – uma da ultimas me respondeu. – Preferia passar a minha vida em um buraco cheio de serpentes, a me casar com você – essa pelo menos foi sincera. Me magoou menos que a garota que simplesmente riu, quando perguntei se ela teria interesse em mim, e não me deu uma resposta sequer. Na verdade eu acredito que ela ainda esteja rindo até hoje.

Estava decidido. Se eu quisesse ser feliz, teria que arriscar abandonar o meu mundo seguro e estável. Teria que me aventurar em terras desconhecidas e enfrentar meus medos. Minhas posses não valeriam de nada, se não houvesse alguém com quem repartir. Fiz minha mochila, coloquei apenas o necessário, e fui embora da vila, sem olhar para trás.

— Ei moço! – gritou uma menina, mas pelo jeito que pela idade já tínhamos quase a mesma. – Para onde vai com tanta pressa? – disse com olhar tomado pela curiosidade.

— Vou em busca da felicidade! – disse com firmeza, para a jovem de pele morena e sorriso fácil. Isso aconteceu ainda no primeiro dia de viagem.

— E como ela é? – Ela diz, aparentemente interessada.

— A felicidade não tem rosto, ela tem várias formas e aparece de muitos jeitos. A felicidade que procuro, precisa ter um olhar acalentador, um sorriso reconfortante, uma palavra amiga e principalmente, calor para aquecer minhas noites mais frias.

— Você quer dizer que está procurando uma mulher? – por pouco não dei uma resposta mal educada, mas o olhar da moça emanava sinceridade com sua observação. Apenas confirmei com a cabeça. – Então eu também quero ir com você encontrar a felicidade.

Não vi problema e deixei que ela viesse comigo. A princípio a jornada não parecia difícil, eu possuía tudo que precisava na mochila, e agora possuía uma agradável companhia, mas a verdade é que não foi bem assim. Na primeira cidade que parei, haviam muitas mulheres disponíveis e uma em particular se demostrou atraída. Me precipitei e fiquei muito feliz. Se eu soubesse…

Ela insistiu em formalizar a nossa união no dia seguinte. Para minha surpresa quando cheguei em sua casa, havia um pequeno grupo de homens do lado de fora. A maioria deles eram fortes e intimidadores.

— O que querem esses homens? – perguntei a mulher.

— Estão aqui pela minha mão.

— Como se está prometida a mim?

— Me casarei com o que se mostrar mais forte. Quero um homem que me proteja. Lute com todos e se for o melhor, me caso com você.

Achei um absurdo, claro, mas a princípio acabei aceitando a disputa. Modéstia parte, me viro bem em uma contenta. Porém, lá pelo sexto homem, eu estava com ambos os olhos roxos e inchados, meus joelhos estavam aos frangalhos e meus punhos parecia duas ameixas gigantes, tanto pela cor, quanto pelo inchaço. A mulher parecia se divertir, e pela primeira vez na vida eu achei que ia morrer.

Quando finalmente eu comecei a ceder ao cansaço, e principalmente pela dor. Kiara, o nome da moça de tez morena que viajava comigo, entrou na “arena” e jogou terra nos olhos de meu adversário. Ela me puxou pelos braços, e ignorando meus protestos, me levou para bem longe da luta e da possibilidade de me conjugar com a moça.

Quis gritar com ela, e repreende-la, mas não pude culpa-la. Ela foi amiga, e quis apenas me poupar dos danos da luta. Durante uma semana ela me ajudou a curar as feridas, e nos três primeiros dias, se ocupou de cozinhar e ascender a fogueira. Nunca vi ninguém tão dedicada.

A história se repetia em todas as cidades. Algumas queriam pretendentes fortes, outras preferiam os ricos, teve aquelas que não sabia o que queriam. Foi engraçado, pois as desculpas que eu recebia, cada vez mais faziam menos sentido.

— Você é jovem demais.

— Você é velho demais.

— Quero alguém engraçado.

— Preciso de alguém sério.

— Gordo!

— Magro!

Foi então que percebi que não havia verdades nas desculpas que me davam. Notei que na verdade a maioria delas, apenas não queriam ferir meus sentimentos. Mas as mentiras que me contavam, cortavam o meu espírito e o deixava agonizando. Prefiro a punhalada de uma cruel verdade, do que ser envenenado por uma doce mentira.

Estava então, sentado ao pé de uma arvore, nos limites da última vila que visitei, sendo cuidado por Kiara, que passava uma pasta verde feita de raízes, em vários arranhões espalhados pelo meu corpo. Arranhões que consegui, ao correr em uma encosta, atrás de um queijo, competindo com vários homens bêbados, porque uma dama disse que se casaria com quem pegasse o queijo. Fui golpeado, trombado, pisado e acabei terminando meu percurso deslizando com o queixo por toda a encosta, em meio a lama e cascalho.

— Corky, vale a pena se machucar para encontrar o amor? – Kiara me perguntou.

— É melhor do se envenenar com o ódio.

— E como você vai saber que encontrou o amor verdadeiro?

— Quando conhecer alguém, que cuide de mim, goste de conversar comigo, goste de ficar comigo, de forma incondicional. E principalmente, que também tenha medo das noites frias e solitárias.

— Corky… Eu tenho medo das noites frias e solitárias… - Kiara disse, exibindo brilho em seus olhos.

Ela cuidou de mim, me aqueceu e ficou ao meu lado sem nunca reclamar ou pedir algo em troca. Pra ela, era suficiente apenas ficar ao meu lado. Eu fiquei tão ocupado em encontrar a felicidade, que não percebi que ela sempre esteve ao meu lado, apenas esperando o momento certo para ser notada.

Me casei com Kiara.

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